estava deitada, fê-lo tarde e dolorosamente, até que o espírito, demasiado irrequieto, empurrou-a a sair dali. o frio acentuava a insónia. o desconforto da sala fê-la puxar mais um cigarro, e outro. visitou quase todas as sensações desagradáveis que sentia e não a deixavam dormir, sequer descansar o corpo. fê-lo como se fosse alguém de fora de si própria, uma outra, estranha a tanta confusão de emoções. depois, vazou a mente na calçada silenciosa e fresca, como o dia que começava a nascer. não gostou de nada do que experimentara nessas horas mas achou que o frio é o justo prémio para quem anda à deriva do amor.
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domingo, julho 13, 2008
domingo, julho 06, 2008
quarta-feira, abril 23, 2008
domingo, abril 13, 2008
há um momento em que cerrados os olhos só as mãos vêem. nada ousa segurá-las. ziguezagueiam pelo dorso acima. detêm-se, gulosas, nos botões do teu prazer. do meu prazer.
custa suster o rumo anárquico do tacto. as mãos, minhas, seguem pela tua epiderme. tactéis e agéis, suaves e ardilosas. puxo-te corpo-todo-que-desejo para mim, até nos sentirmos coladas.agarro-te a nuca e procuro o pescoço, desajeitadamente com a boca que seca. encostas-me da maneira que gosto e sustenho-me de pernas arqueadas contigo no meio delas. nesse instante, olhos semi-cerrados, escolhemos entre a sala ou o quarto pela medida da tesão que nos domina.
quando a cara me enrubesce já cavalgamos todos os espasmos do prazer molhado. não há fronteiras, quero crer, nessa prece desesperada ao gozo-meu-e-teu. nem amanhãs. nem pecado.
domingo, abril 06, 2008
no autocarro, ela olhou para a paragem e susteve a mirada: a rapariga vulgarmente vestida abrigava-se ali, corpo hirto do frio das chuvas de abril. só mexia os olhos para seguir por segundos cada vulto que saia do veículo. o seu olhar movia-se entre cá e lá, como se estivesse a assistir a uma partida de ténis. a bola eram elas,... seguia uma com o olhar, dois ou três passos e voltava de imediato para a porta, detendo-se noutra, e depois noutra... de dentro, não podia ver-lhe nada mais que esse movimento anódimo de seguir o isco. havia tempo, praticara eu mesma esse tipo de jogo, bestial e inofensivo: medir-lhes os olhos, a boca, o perfil; apurar os sentidos, imaginar de onde vinham e onde se recolhiam; dariam conta que reparava nelas?
pensar nas razões da solitária brincadeira, porque me divertia assim, como me entretinha, revelou-se um suave perfume. como se a catarse chegasse à mente antes das marcas ao corpo.
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